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Resenha de O Destino do Lobo e O Código das Águias

 

Oi gente, tudo bem? O Luan Montá (https://www.facebook.com/luan.monta) é um nerd de carteirinha, foi ao lançamento dos meus livros e dedicou parte do seu tempo a redigir uma resenha muito bacana sobre O Destino do Lobo e O Código das Águias, onde revela suas impressões sem dar spoilers. 😀  Gostei tanto da resenha que decidi publicá-la por aqui, afinal, ele é daqueles leitores que gosta de esmiuçar os livros e encontrar alguns segredos. Fiquei muito feliz por ver que ele desvendou os crossovers e a maioria dos segredos e brincadeiras que fiz nos livros. Acompanhem aí a resenha!

Impressões sobre “O Destino do Lobo” e “O Código das Águias”

Ano passado fui ao lançamento do livro “O Código das Águias”, e aproveitei para comprar o anterior, “O Destino do Lobo”, e lê-los na ordem: lobo e depois águia. Antes mesmo de abrir os livros percebi que os dois já tem algo um tanto curioso: os títulos, que sugerem algo místico, histórias com animais, algo meio xamânico, quem sabe…? Embora no lançamento d’O Código das Águias a autora tenha comentado aspectos das tramas, só mesmo lendo o livro eu poderia confirmar certas hipóteses. E realmente pude ver um pouco de tudo isso enquanto avançava a leitura!

É interessante notar a semelhança estrutural de ambas as histórias; por exemplo: as duas começam com cenas de caça sob a perspectiva dos caçadores (lobos e águias, no caso), cenas estas bastante naturais e mostradas como algo comum/cotidiano, e ao mesmo tempo com um toque de lenda ou de uma dessas histórias passadas adiante de forma oral, como as que me contavam quando eu era criança. Ao menos foi esta a impressão que tive. E afirmo: gosto quando uma história consegue, mesmo que em poucos momentos, me colocar de cara com meu eu criança, que adorava ouvir contarem grandes aventuras. “O Código das Águias” teve mais êxito que “O Destino do Lobo” neste quesito (voltarei ao tema mais adiante). As caçadas não são brutais como é possível supor, não apresentam descrições floreadas ou rebuscadas, nem passam a impressão de serem parte de um documentário cheio de detalhes complexos. São concisas, diretas e com o ar de normalidade que devem ter; são apresentadas como ações que vemos diariamente na natureza, um misto de beleza e feiura. Em seguida somos apresentados a um bisavô e seu neto, a quem o primeiro conta as histórias narrada nos livros. E é a estas histórias contadas pelo bisavô que os títulos se referem. A ideia de transmissão oral do conhecimento é bem marcante nas duas narrativas, o que reforça a impressão de algo lendário ou místico que permeia as histórias, tanto do lado humano quanto do lado dos demais animais.

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A evolução da escrita do primeiro para o segundo livro é clara: a narrativa deste é mais dinâmica e estruturalmente mais firme que a daquele, por exemplo, e as personagens me pareceram mais empáticas. Isto é algo bastante pessoal, na verdade, e tem a ver com algumas situações do livro. Quanto à narrativa, esta é sempre concisa, direta e sem floreios que possam prolongar excessivamente a leitura, e as descrições costumam ser bastante poéticas e metafóricas, comparando características físicas como pelagem ou um olhar a elementos da natureza, luz etc. Isso cria um equilíbrio interessante e reforça o caráter de lenda, presente do título às últimas páginas de ambos os livros. A leitura é fácil e os capítulos curtos dão vontade de continuar sempre, principalmente em “O Código das Águias”, que confesso ser meu preferido entre os dois. O desenvolvimento de “O Destino do Lobo” me aprece um pouco confuso em relação a este em alguns momentos. Talvez seja só impressão. O “místico e o sobrenatural” d’O Destino do Lobo não estão tão presentes n’O Código das Águias, que mostra uma história mais real, mais “humana”/”animal”, e me identifico mais com este aspecto. Porém em vários momentos há elementos que conectam os dois livros, seja uma águia que apareça no primeiro ou um objeto ou acontecimento mencionado no segundo. É possível lê-los separadamente e entendê-los perfeitamente. Diga-se de passagem, essas características que cruzam as histórias o fazem de maneira não muito usual, bem mais sutil do que eu poderia supor. Ambas parecer ter a mesma base, todavia com “quandos”, “comos” e “porquês” um pouco diferentes. Além disso, como estas “lendas” são passadas de um bisavô para seu neto, o que temos é uma história dentro de outra, e tudo isso contribui para criar essa percepção de atemporalidade que devem ter fábulas e contos maravilhosos. O presente em que bisavô e neto vivem seria o nosso? E o passado descrito n’O Destino do Lobo e n’O Código das Águias seria quão longínquo? Aprendi com teatro que um mesmo roteiro pode sofrer pequenas adaptações e ser reinterpretado, sem alterar sua estrutura e as falas. Ou seja, exatidão e precisão nem sempre são a melhor opção. Abrir o leque de suposições é mais divertido.

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Cada personagem se revela ao leitor aos poucos. Em um primeiro momento sabemos a cor das penas de um ou uma característica psicológica de outra, e no decorrer da história isso vai se somando a outras característica. Essa “construção” da personalidade e aspectos físicos é muito interessante em cada livro, mas por motivos diferentes: n’O Destino do Lobo, porque reconhecemos cada lobo por seu comportamento e jeito de ser; e n’O Código das Águias porque acompanhamentos o crescimento e amadurecimento das personagens, tanto físico quanto psicológico, como se crescêssemos com eles. Mesmo assim nada disso é tão aprofundado a ponto de confundir leitores muito jovens. Estas histórias são como contos de fadas: podem agradar a qualquer um por diferentes motivos, e certamente podem ser interpretadas de modo distinto por adultos e crianças. Não vejo muitas histórias hoje em dia que não tenham um público excessivamente específico, e isso é definitivamente um ponto positivo nos dois livros aqui mencionados!  Há tempos eu precisava ler algo mais abrangente neste sentido. Como é um livro destinado a um público juvenil, ressalto ainda a praticidade da existência de um glossário nas páginas finais! São poucos os termos explicados, principalmente nomes de plantas ou animais. Nada muito científico ou desnecessário para a narrativa. Sempre gostei de procurar palavras em dicionários (tenho uma coleção deles em casa), mas a solução do glossário vem bem a calhar em diversos materiais.

O ponto das histórias que me parece mais forte é a relação homem-animal-ancestral, e o grande misticismo por trás disso. Com “homem-animal” refiro-me à relação humano-cachorro/lobo e humano-águia e à compreensão de um pelo outro por meio de linguagens não necessariamente verbais, e sim ligadas a algo mais instintivo, comportamental (de um abanar de rabo a um sorriso, uivo ou piado) e ao sentimento de confiança mútua. Todos têm seus ancestrais, os antepassados que dividem sua sabedoria de maneiras diversas, seja por meio de uma aurora boreal ou sonho, e que guiam os protagonistas para que cumpram suas respectivas missões. Nesse ponto O Código das Águias é mais centrado em um único personagem, uma águia, enquanto O Destino do Lobo mostra a relação de espécies diferentes e seus ancestrais, e como uma auxilia a outra para que cheguem ao objetivo comum, a autodescoberta e descoberta do próximo. E ainda dentro deste tema, algo curioso: todos os animais tidos como “irracionais” entendem uns aos outros, mas não compreendem o que dizem os humanos e vice-versa. Já me fiz essa pergunta algumas vezes, e seria interessante saber a resposta: até que ponto todos os animais compreendem uns aos outros? Isso é muito delicado para se discutir, mas deixo dito. Outro ponto pertinente é a presença constante de personagens femininas fortes, desde protagonistas como a loba alfa Kushi até Kiowa, uma sábia águia, admirada pelas demais de sua espécie. Hoje em dia isso tem se tornado cada vez mais comum, e por vezes gera algum desconforto ou rebuliço. Defendo que uma história precisa, acima de tudo, de bons personagens, sejam homens ou mulheres, jovens ou velhos, bons ou maus. Quando tentam empurrar um modelo, gera-se um desconforto, uma falta de naturalidade. Depois de ler as duas histórias, posso garantir que isso não ocorre, e que tudo flui muito bem, que todos têm sua importância e relevância nas tramas e que existe um respeito mútuo. Ninguém é menosprezado ou superestimado por certas características: todos são diferentes e têm funções distintas, mas igualmente necessárias; um admira ou teme o outro independente de motivos banais; um(a) líder é um(a) líder e um(a) mestre(a) é um(a) mestre(a). Acho válido comentar isso porque às vezes o tema não é bem explorado em uma narrativa e pode desagradar algumas pessoas. Mas quando tudo flui bem não há erro!

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E falando em fluir bem, para aproximar os animais do leitor, como que os humanizando um pouco, a autora optou por transpor características tidas como humanas para eles, adaptando-as à sua fisiologia. Por exemplo: quando uma das águias comenta que sente o coração batendo forte contra sua quilha (o que para nós seria o equivalente a “coração batendo forte contra o peito”). Há outros exemplos, mas com este é possível ter uma noção de como são descritas e interpretadas as personagens em diferentes situações. De modo geral as descrições são bastante figurativas, e muitas vezes bastante poéticas, o que combina com o clima das histórias. Tudo contribui para criar um ambiente primitivo, distante da civilização atual e sua maneira científica de ver o mundo. Exemplo disso é a contagem de sóis e verões em vez de dias e anos. Nestes aspectos, estruturalmente não tenho do que reclamar dos livros!

Expostas estas minhas impressões, pontos positivos e negativos, posso afinal concluir: O Destino do Lobo e O Código das Águias tratam de dúvida, libertação (tanto desta dúvida como de libertar-se de certas situações ou problemas) e amadurecimento, cada um à sua maneira: O Destino do Lobo mostra o medo dos lobos de serem domesticados pelo homem e como aqueles passam a compreender os prós e contras desse convívio entre espécies; O Código das Águias mostra uma relação temporária entre homem e águia e os benefícios do auxílio mútuo. Bons temas para o público a que se destinam os livros, o juvenil, mas nem por isso são coisas apresentadas de maneira superficial ou desinteressante. Estilisticamente prefiro O Código das Águias, conforme mencionei acima; a narrativa d’O Destino do Lobo por vezes me pareceu cansativa, talvez pelo grande número de personagens próximos ou por certas cenas serem mais rápidas ou mais longas do que poderiam; algumas situações se resolvem abruptamente, por exemplo. Não tenho exatamente um motivo principal para preferir um ao outro, é mais uma questão de empatia, eu diria. A construção dos personagens d’O Código das Águias é mais envolvente, e ação mais dinâmica e constante, e os problemas são mais palpáveis que no outro livro, onde tudo é mais místico e surreal (não é a melhor palavra, mas assim posso evitar spoilers). A meu ver, O Destino do Lobo parece ser uma base, uma introdução ao mundo das “fábulas da terra”, enquanto que o livro seguinte permite-nos acompanhar as ações de maneira mais direta, sem nova apresentação à mitologia desse mundo. Quem sabe esse seja o motivo de eu preferir O Código das Águias ao Destino do Lobo: a sua maior solidez.

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É curioso como um livro é ao mesmo tempo uma continuação do outro e uma história quase totalmente independente, até mesmo neste aspecto real vs místico. Esse ar de fábula e conto de fadas presente em ambos me remete muito à infância, o que acho muito positivo. São bons livros para iniciar jovens no mundo da leitura. Para mim, por exemplo, fazem com que me lembre dos contos de fadas e fábulas que eu tanto adorava quando criança (e ainda adoro), e esta é uma sensação que eu sempre busco, seja em um livro, filme ou música. Encontrá-la é gratificante! E não posso me esquecer de abrir espaço para falar das ilustrações, feitas pela própria autora. O desenvolvimento da parte escrita e visual concebidos pela mesma pessoa tem uma grande vantagem: ninguém melhor que o(a) autor(a) para representar visualmente aquilo que mostra por meio de palavras. Isso possibilita uma interpretação diferente de uma história, já que nos aproxima mais da perspectiva de quem a escreveu.

As duas histórias foram ótimas surpresas; como nunca tinha lido nada da autora antes, não tinha nenhum parâmetro, tudo era novo, não sabia que estilo e que palavras eu poderia esperar. E de fato foi uma experiência agradável, que valeu a pena! Dito isto, considerando-se ou não minhas ressalvas, recomendo a leitura! Se for mantida a qualidade, muitos livros podem vir sob o selo “Fábulas da Terra”. Certamente esperarei pela(s) continuação(ões).

 

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