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Distopias: o manual da selvageria humana

Todos os dias recebo e-mails de pessoas me pedindo dicas para escrever sobre distopias. Definições costumam ter uma cara acadêmica e, portanto, exemplos práticos sempre são formas melhores de ilustrar um assunto.

Imagine um mundo onde as pessoas vivem numa condição sub-humana, guiadas por políticos ou condutas opressoras, onde a escassez de alguma matéria-prima transforma a todas em cães de briga, ou até mesmo as faz seguidoras de uma tradição que as levará à ignorância cega, a um destino cataclísmico. Isso é distopia: o inverso de uma sociedade utópica, o oposto a um futuro esperançoso. Pareceu familiar a você?

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Se você se lembrou de referências históricas como o nazismo; a ditadura militar; a fome no nordeste ou no continente africano, você acabou de perceber como se constrói um cenário  distópico. Ele é totalmente inspirado nas assustadoras e tristes realidades de mundo.

Este gênero surgiu por volta de 1826, quando Mary Shelley publicou O Último Homem,onde trata de um futuro apocalíptico dominado por uma praga. Uma lista de inúmeros livros poderia ser citada ao longo dos anos, desde Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, até a influência militar que fez nascer A Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1948), de George Orwell;  Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury. Já por volta de 1960 a corrida tecnológica e científica foi incorporada à distopia: a Guerra Fria teve grande influência; Laranja Mecânica (1962), de Anthony Burgess; O Planeta dos Macacos(1963), de Pierre Boulle são exemplos claros desta nova tendência. Alguns anos depois, vemos o cyberpunk, que também nasce na distopia. Neuromancer (1984), de William Gibson, é um dos que se destacaram.

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Temas assim tendem a se repetir ao longo da vida em outras publicações desse gênero. Há quem diga que todas as histórias já foram escritas, o que muda é a forma como são contadas. Nos últimos dez anos, as distopias mais publicadas, segundo o google, foram aquelas voltadas majoritariamente ao público jovem, repetindo muitas vezes valores já discutidos em outros livros. Jogos Vorazes (2008) de Suzanne Collins; Divergente (2011) de Veronica Roth e The Maze Runner (2014), James Dashner foram os maiores destaques desse gênero e todos abordam alguma forma de controle social e angústia pelo personagem não estar satisfeito com a sua situação atual.

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A grande diferença entre as distopias mais antigas e as lançadas recentemente é o simples fato de que, nos livros antigos, o drama e o terror psicológico eram o foco da narração levada ao leitor. Já nos livros mais modernos, os autores abrem espaço para descrever mais seus personagens, de modo que o jovem leitor possa se identificar de alguma forma com eles, até mesmo torcer para que um romance aconteça entre a protagonista e um moço misterioso e de boa índole.

No Brasil, as distopias nasceram com O Presidente Negro (1926) de Monteiro Lobato e seguiram numa crescente, com autores como Ricardo Ragazzo em seu livro Cidade Banida (2015); Renan Carvalho com Supernova: O Encantador de Flechas  (2013) e Roberta Spindler com A Torre Acima do Véu (2014).

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Boas histórias nesse gênero podem melhorar o ponto de vista crítico do leitor e do próprio autor, gerando perguntas existenciais e exigindo respostas. E, para finalizar, deixo aqui algumas lições distópicas para refletir:

Por baixo desta máscara não há só carne… Por baixo desta máscara há uma ideia. E ideias são à prova de balas (V de Vingança).

A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão (Aldous Huxley).

É como se fôssemos as células alimentadas pelo corpo Do Comandador. Somos o que nos ensinaram ser, olhamos para onde nos ensinam a olhar e funcionamos para aquilo que fomos programados… Se fosse uma célula, preferia ser um câncer (Paola Giometti).

Este é um artigo do grupo Iluminerds: http://www.iluminerds.com.br/

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